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Nas primeiras aulas de um qualquer curso de microeconomia, quase sempre o professor explica formalmente aos seus alunos aquilo que todos os nossos antepassados já sabiam muito antes de Adam Smith ter começado a dar vida à Ciência Económica: quando a procura aumenta e a oferta se mantém constante ou diminui, os preços sobem!

Em grande medida, a simples e muito bem compreendida lei da oferta e da procura explica a escalada de preços que tantas dores de cabeça nos tem dado sempre que visitamos um supermercado, um restaurante ou a bomba de gasolina.

Esta conjuntura relembra-nos também algo que muitos tinham esquecido, incluindo políticos e até alguns economistas: o dinheiro nada vale se não houver produção.

Os primeiros sinais de inflação apareceram durante o ano de 2021, com a subida de preços de materiais e produtos incorporados em vários sectores de atividade, nomeadamente construção e agricultura. Contudo, enquanto produtores, grossistas e construtores foram sendo confrontados com estes aumentos durante o ano passado, é a partir do início deste ano que os consumidores finais começam a sentir o real impacto destas subidas no seu custo de vida.

Mas afinal porque é que os preços estão a subir tão rapidamente?

  • Subida dos Preços da Energia e dos Produtos Alimentares

Na informação à comunicação social do INE do passado dia 30 de junho, o organismo estatístico português estimava uma variação homóloga dos preços de 8,74%. Os maiores responsáveis por estas subidas são os Produtos Alimentares não transformados com uma subida de 11,93% e os Produtos Energéticos com 31,74%. Excluindo estes dois agregados, a inflação estimada é de “apenas” 6%.

A estas variações devemos recordar o facto de que o custo final da venda de praticamente todos os produtos que consumimos é afetado pelo custo da energia (custos de produção, custos de transporte, etc…).

  • A explosão da procura no regresso à normalidade

Com as restrições impostas pelos governos para controlar a pandemia, a taxa de poupança das famílias aumentou significativamente. No nosso país, por exemplo, a taxa de poupança atingiu os 12,8% em 2020, um dos valores mais altos deste século. Porém, com o levantamento da maioria das restrições, os consumidores regressaram muito rapidamente aos níveis de consumo pré-pandemia, acabando por adquirir muitos bens e serviços que não puderam adquirir durante os dois anos anteriores.

Esta rápida explosão no consumo não deu tempo para que as empresas se conseguissem readaptar ao rápido crescimento da procura, especialmente as ligadas à logística, sector especialmente atingido pela pandemia.

  • Alterações no padrão de consumo das famílias

A pandemia gerou também algumas alterações nos padrões de consumo. Um dos exemplos é o aumento da procura de produtos eletrónicos e materiais para as casas, o que contribuiu para um aumento muito rápido da procura de semicondutores, causando a escassez atual de todo o tipo de produtos cuja produção ou distribuição dependa deste tipo de componente.

  • A inflação estava muito baixa no início da pandemia

Não é um dos fatores com maior peso, mas tem também algum impacto o facto da inflação ter estado tão baixa nos primeiros anos da pandemia, fazendo com que todos os fatores acima mencionados tenham ainda um maior impacto taxa de crescimento dos preços face ao ano anterior.

O que esperar até ao final do ano?

Com a normalização do consumo, o restabelecimento da capacidade produtiva e recuperação das cadeias logísticas, é de esperar que a inflação regresse aos níveis pré-pandemia, ou pelo menos se aproxime dos 2%, objectivo do Banco Central Europeu. No entanto, novos desafios surgiram já este ano, como é o caso do conflito na Ucrânia e as sanções impostas ao país invasor pela União Europeia e Estados Unidos.

A redução da mão-de-obra disponível é um desafio acrescido. Após décadas de estagnação dos rendimentos das classes média um pouco por todo o ocidente, a conjuntura atual dá sinais de que os cidadãos já não estarão dispostos a trabalhar nas mesmas condições e pelos mesmos salários. No entanto, embora a melhoria das condições de vida de todos os cidadãos seja algo desejável por todos, este poderá ser mais um fator de pressão sobre os preços e um desafio à sobrevivência das empresas em sectores mais competitivos.

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